Na noite deste domingo (17), o “Fantástico” exibiu uma reportagem sobre a acusação de violência doméstica contra o deputado federal Carlos Alberto da Cunha (PP-SP), réu por agredir a ex-companheira Betina Grusiéck, em outubro de 2023. Em vídeo gravado pela vítima, é possível ouvir insultos e agressões do “Delegado da Cunha”. “Pode parar, se não vou te matar aqui“, “Desmaia aí” e “Tua conta já deu” foram algumas das ameaças ditas contra a mulher de 28 anos.

Em depoimento à Justiça, Betina afirmou que o último ataque aconteceu em 14 de outubro do ano passado, em um apartamento em Santos, litoral de São Paulo. Os dois viviam um relacionamento desde 2020 e não tinham filhos juntos. Ela narrou como era tratada pelo ex-companheiro e revelou a relação dele com a bebida alcoólica.

Me desqualificava, falava que minha profissão não valia nada, me xingava de vagabunda, de lixo, que eu não servia pra nada, que eu só era uma ‘bunda’. Em todas as discussões, eu fazia minha mala e falava que ia embora. Enforcar já estava sendo comum, me jogar contra a parede. Quando ele me jogava na parede, eu já paralisava e não pensava mais em ir embora. Não tinha hora para beber, começava a beber whisky meio-dia, uma hora da tarde, a hora que ele quisesse“, disse Grusiéck.

Cunha, por sua vez, elogiou Betina, disse que era muito “apegado” e que ouvi-la falar que iria embora, era como um “gatilho”. “Ela é uma boa pessoa, uma menina correta, super correta, super trabalhadora. A gente tinha uma família, de repente, a coisa começou a desandar. Eu tenho três filhos, sou homem, delegado de polícia há 20 anos. Eu tenho uma voz bruta, mas eu não sou um monstro e sou muito conhecido por ser do diálogo. Eu me sentia muito coagido com esse ‘vai embora’ dela toda hora. Eu era muito apegado, então fazia qualquer coisa para ela não ir embora. E ela sempre ameaçava de ir embora, ‘vou embora, vou bloquear, vou te largar’. Quando ela está brava, nervosa, ela fecha a cara, ela não fala com ninguém. Isso também machuca muito. Tem gente que estoura, tem gente que silencia, que estoura“, declarou.

A denunciante, então, explicou que a agressão aconteceu no aniversário do deputado. Um dia antes, eles tiveram uma briga. “No meio da discussão, ele começou a chorar que nem a uma criança, se ajoelhou e falou: ‘Por favor, me perdoa. Eu vou me tratar, eu vou me curar. Não termina comigo hoje, termina amanhã’. Então, fomos dormir e eu perdoei“, disse ela. No dia seguinte, Betina contou que o ex-companheiro havia saído com os filhos dele e que voltou para o apartamento “bem alterado, começou já a me xingar, como sempre“.

Acostumada a ser insultada, ela decidiu gravar o episódio. No vídeo, é possível ouvir a discussão. “Vai correndo para casa da mamãezinha“, disse Cunha. “Não. Não vou para casa da mamãe“, respondeu Betina. “Pode parar. Pode parar, senão vou te matar aqui“, ameaçou ele. “Vai me matar?“, perguntou ela. “Matar“, afirmou o delegado. “Ah, então mata“, disparou a mulher.

Em seguida, é possível ouvir um barulho. Betina disse em audiência que, nesse momento, foi empurrada com força e sufocada pelo deputado. “Ele me empurra com força no banheiro, segurando meu pescoço. Até o momento que ele me sufoca, eu perco a consciência e desmaio. Caio no chão, quando eu retomo a consciência, ele fala: ‘Desmaia aí, desmaia aí’. Esse ‘eu vou te matar’, eu já tinha ouvido várias vezes, só que eu nunca tinha acreditado. Eu achava que ele falava da boca pra fora. Só que nesse dia, eu realmente achei que ele fosse me matar“, desabafou.

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Ainda é possível ouvir Cunha dizendo “desmaia aí. A tua conta já deu. A tua conta já deu“, além da denunciante pedindo ajuda para os filhos do ex-companheiro e à polícia. Ela ainda afirmou que se defendeu com um secador. “Abriu o supercílio dele, caiu bastante sangue em mim, caiu sangue nele. Eu fiquei muito assustada, porque eu não queria machucá-lo, só queria sair dali. Ele dizia me matar, ia dar um tiro na minha cara“, acrescentou. Assista:

O deputado negou que tenha agredido Betina. Ele abriu um Boletim de Ocorrência e alegou que ele teria sido agredido pela ex-companheira. À Justiça, ele ainda citou razões psicológicas e espirituais. “A gente estava em um momento que os dois estavam foram do rumo. Os dois estavam desestabilizados. O demônio estava dentro de casa. Não era Betina, nem era o Cunha“, disse.

O laudo do Instituto Médico Legal, entretanto, constatou que a denunciante tinha escoriação no couro cabeludo e lesões corporais leves. O Ministério Público também concluiu que Betina agiu em legítima defesa.

O que dizem os advogados

Gabriela Manssur, advogada de Betina, explicou que ela “não conseguia romper o relacionamento, tinham altos e baixos. Ela, muitas vezes, ficava com pena e isso acabou enfraquecendo a Betina. Ela começou a adoecer, o que dá margem para agressões mais graves, mais intensas“.

Nenhum homem tem o direito de cometer violência contra uma mulher, principalmente quando ele tem que ser um exemplo para a sociedade. A Betina, em nenhum momento, entrou com qualquer ação, ainda que ele vivesse com ele uma união estável, requereu partilha de bens, requereu alimentos ou qualquer outra providência no âmbito material. Ela simplesmente quer proteção, justiça e tranquilidade para continuar vivendo a vida dela. Ela só tem 28 anos“, declarou a advogada.

Os pais da denunciante também condenaram as atitudes de Cunha. “Primeiro que agredir uma mulher é covarde. E segundo: o lutador, faixa preta que ele é fazer isso com uma mulher? Então, para mim é claramente um duplo covarde“, falou o pai de Betina. Além disso, a mãe da vítima afirmou que o deputado propôs um acordo para não expor o caso publicamente.

Cunha pediu para pais de Betina não exporem o caso publicamente. (Foto: Reprodução/TV Globo)

Eugênio Malavasi, advogado de Cunha, informou que o vídeo não foi periciado. “Eu vou pedir a submissão desse vídeo a perícia. Porque esse vídeo não foi periciado. Não estou falando que é inverídico, mas não passou pelo crivo do Instituto de Criminalística, não foi submetido à perícia oficial. Dentro de um contexto. Se ele disse isso, foi dentro de um contexto de cólera, dentro de um contexto de briga. Nós somos homens. Quando digo homens, seres humanos. Seres humanos têm discussões de casais. Um fato isolado na vida do deputado não pode estar embrionariamente ligado com o exercício do mandato de deputado federal, do deputado delegado da Cunha“, finalizou.

A Justiça concedeu medidas protetivas para Betina e para os pais dela, além disso, determinou que Cunha entregasse suas armas. A Secretaria de Segurança Pública informou que o delegado está regularmente “afastado para exercer atividade parlamentar” e “responde a cinco procedimentos na Corregedoria, ainda sem decisão definitiva“. O caso ainda será julgado.



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