A paixão do DJ & Producer Leandro Silva pela música foi despertada em Angola em meio a tempos difíceis. Desde a criação das primeiras playlists em fitas cassete para os amigos, até tocar para amigos próximos, familiares e na escola, o amor de Leandro pela música ficou evidente desde o início.

No entanto, sua jornada tomou um rumo inesperado quando ele deixou Angola tendo que escapar da guerra civil e buscou refúgio na Europa. Foi lá que ele descobriu DJs lendários e embarcou em uma busca pelo conhecimento, moldando seu caminho único para o sucesso na Música Eletrônica.

Após seu retorno à África em 1999, Leandro enfrentou desafios, mas permaneceu determinado em sua busca pela excelência. Em meio às dificuldades cotidianas, ele absorveu uma ampla gama de influências e mergulhou em diversos estilos musicais, expandindo seus horizontes. Em 2007, sua carreira como DJ atingiu novos patamares quando ele se tornou DJ residente no Elinga Bar, solidificando sua posição como uma figura proeminente na cena da música eletrônica local.

O talento de Leandro Silva e sua abordagem singular à música têm recebido amplo reconhecimento. Com uma habilidade técnica inata e vasto conhecimento musical, ele cria sets magnéticos, progressivos, orquestrais ou ambientais. Leandro vem moldando o futuro da música eletrônica, literalmente, um set de cada vez.

Embora sua paixão pela discotecagem fosse evidente, o interesse de Leandro pela produção musical permaneceu em grande parte subdesenvolvido até 2006. Foi durante esse período que ele começou a editar faixas de outros produtores, abrindo caminho para suas próprias produções. Em 2013, suas faixas começaram a ganhar reconhecimento por meio de várias gravadoras, e ele agora possui seu próprio selo, a IGUAL RECORDS.

A jornada musical de Leandro Silva o levou a colaborar com artistas renomados como Mr. V, Robert Owens, Inaya Day, Wayne Tennant, Cinnamon Brown e Veselina Popova, só para citar alguns.

À medida que aprimora suas habilidades, Leandro Silva é um testemunho do poder da paixão, perseverança e dedicação inabalável à sua arte. Com cada apresentação e produção, ele traz uma mistura única de inovação e habilidade artística para o cenário da música eletrônica, enquanto constrói sua marca na cena eletrônica.

Entrevistamos Leandro Silva para saber mais. Leia a seguir! Read on!

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Q+A: Leandro Silva

Olá, Leandro! Obrigado por realizar essa entrevista. Na sua bio, você relata que sua paixão pela música começou cedo, em Angola. Poderia contar um pouco sobre seus primeiros contatos com a música e traçar a influência que isso teve em sua carreira? Como acredita que isso afeta sua carreira como DJ e produtor hoje em dia?

Antes de mais, o prazer é todo meu e fico contente por ver o meu trabalho chegar ao nosso país irmão Brasil.

O meu contacto com a música começou no berço. Os meus pais eram grandes apreciadores de música e colecionadores de discos, portanto fui sempre estimulado pelas diferentes sonoridades que ouviam na altura, que variava entre música africana, brasileira, antilhana e, claro, música portuguesa.

Quando era adolescente comecei a gravar música e senti a necessidade de partilhá-la. Gravei cassetes com uma sequência coerente, para tocar sem interrupção e oferecia a familiares e amigos que, posteriormente, passaram a pediram-me para tocar música nas festas deles. Nessa altura ainda não tinha muito contacto com a música eletrônica.

Essa variedade musical influencia a minha capacidade para abranger várias vertentes musicais durante um DJ set [atualmente], de adaptar-me às diferentes pistas em que toco e permite-me também misturar ritmos de diferentes culturas, quando produzo música.

Você relata ter vivido em um “ambiente difícil, de recursos limitados, mas também rico em sons e visões interessantes”. Como foi se mudar aos 17 anos para a Europa, um mundo totalmente novo e repleto de possibilidades? Como isso acabou sendo crucial para você levar sua atividade profissional ao next level?

Sim é verdade, a mudança para a Europa foi forçada e foi um momento de adaptação, mas foi o abrir de uma enorme porta para o conhecimento musical.

Passava os dias em lojas de música a ouvir e a anotar os títulos dos álbuns e das faixas que mais gostava num bloco de notas, para comprar assim que tivesse possibilidade.

A música serviu-me de abrigo. Tinha sempre o walkman à cintura, pilhas sobressalentes nos bolsos e cassetes (ahahah).

Um dia, mais tarde, um amigo mostrou-me a coleção de discos do irmão, que estava em serviço militar e pude gravar e aprender a misturar com vinil. Gravei bastante música, que usei na minha primeira residência quando voltei para Luanda. Nessa altura ainda não existia a internet de hoje (ahahah).

Você retornou à África em 1999. Qual a realidade que você encontrou no momento de sua volta? Você produzia naquela época? Trouxe equipamentos da Europa com você? Conte-nos um pouco sobre os acontecimentos que marcaram o retorno para Angola.

Ainda havia perigo, mas a situação já estava bem melhor. Já havia mais saídas noturnas, já haviam mais bares e discotecas abertas.


Levei para Angola, basicamente um gravador CD-R e bagagem musical que usei no ano seguinte quando tornei-me residente do Club -T. Bar de um amigo vizinho onde apenas se ouvia House Music.

Essa residência permitiu conectar-me com pessoas que, naquele momento, regressaram a Angola e que estavam mais habituadas a esse estilo musical e passei a ser conhecido como o DJ que apenas tocava house music, o que não era muito comum.

Nessa residência pude conhecer pessoalmente o DJ Claudio Silva, um veterano que tornou-se num mentor e grande amigo, a quem pedi para dar-me mais música e eventos para tocar (hahaha), tanto insisti que ele acabou me ajudando.

Comecei na produção por volta de 2007 por necessidade de alterar algumas músicas para facilitar o mix, adicionar acapellas ou às vezes cortar partes que eu achava que não teriam impacto na pista, um desses edits teve bastante sucesso na noite angolana e isso motivou-me a fazer música original.

Fiz um curso de produção musical Ableton Live e comecei a fazer música.

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Em 2007 você conquistou uma residência no Bar Elinga, algo que certamente levou sua carreira a outro nível, uma vez que a venue apresentava grandes nomes da música eletrônica na programação. Como você conquistou essa residência? E qual a importância, na sua opinião, de um DJ Residency na carreira de um artista?

Um pouco antes do Elinga fui residente do Chill Out, outro espaço de grande referência em Angola e numa das noites enquanto tocava, o Pedro, um jovem que me era totalmente desconhecido, elogiou o meu trabalho e bem pragmático convidou-me para ser residente das noites de sexta feira que iria organizar junto com amigos, num espaço subaproveitado, com má reputação e que estava em vias de ser demolido.

Não levei a oferta a sério, mas dei-lhe o meu contacto e algum tempo depois ligou-me e combinamos conversar. Nessa conversa apresentou-me o Movimento X, um projecto cultural alternativo sem fins lucrativos, que visava provar a utilidade do espaço e evitar a demolição iminente do edifício onde situa-se o Elinga Bar. Ele convenceu-me quando disse que eu teria toda a liberdade musical nos meus sets.

O “X” foi um sucesso, permitiu-me partilhar a cabine e experiências com DJs de vários pontos do mundo e, acima de tudo, o edifício continua de pé!


Uma residência DJ é como uma escola e implica uma grande responsabilidade. O residente é o elemento que conduz a noite e precisa estar constantemente à procura de música, para preparar a noite, adaptar a pista para o convidado brilhar, de forma que as noites sejam um sucesso. Quanto melhor impressionarmos os convidados, mais facilmente criamos amizades e contatos úteis para o futuro.

Como foi para você os anos de Pandemia? Muitos artistas usaram o tempo para produtor música nova, dar um refresh na carreira e até lançaram novos projetos. Conte como foi 2020-2022 para você e como lidou com uma das maiores adversidades já enfrentadas pela humanidade.

Foi realmente um grande desafio! Tinha acabado de abraçar um novo projeto como curador musical no W Hotel Amman, na Jordânia, quando decidiram fechar as fronteiras. Fiquei em confinamento num quarto do hotel… felizmente num hotel 5 estrelas (hahaha).

Apesar desse luxo, a solidão e a saudade da família desencadearam uma série de emoções que resultaram numa inspiração sem precedentes. Comecei a produzir música mais experimental e não tão dirigida a pista de dança que resultou em música suficiente para 3 álbuns, que estão para lançamento em breve.

Agora falando de sua carreira nos anos recentes, sabemos que você já lançou sua música em labels importantes como Pokerflat, Manual Records, Piston Recordings e outros. Com quais artistas você já trabalhou e vem trabalhando?

Nos últimos anos tive a oportunidade de realizar um dos meus sonhos, que era trabalhar com o Robert Owens. A possibilidade de trabalhar com o Robert já tinha sido conversada meses antes.

Contudo, devido às duas agendas serem bastantes preenchidas, demorou algum tempo até acontecer. Um dia o Robert me ligou e disse: “Hey vais estar por Londres amanhã?” E eu, espantado respondi: “Sim vou”. E ele: “OK, então vamos gravar qualquer coisa?” E eu: “Claro que sim!” (ahahah). E tudo correu muito bem!

Tivemos uma sessão bastante descontraída e agradável e o Robert é um excelente profissional.
 Tenho também colaborações com Mr. V, Wayne Tennant, Inaya Day, Veselina Popova e estou a terminar neste momento projetos com 2 cantores africanos que, em breve, sairão pela minha label Igual Records.

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Como você descreveria sua música, seu estilo, seus sets para as novas audiências que estão começando a ouvir falar sobre você no Brasil?

Considero a minha música muito eclética e progressiva, mas de bom gosto, modéstia à parte (ahahah).
 Uma fusão profunda, dinâmica e energética que ganha impulso à medida que o set avança.

Contudo, depende sempre da energia que a pista me transmite. Já fui para gigs a pensar que ia tocar uma coisa com mais ritmo e acabei a fazer um set mais disco e não tão uptempo como previa, por isso depende muito daquilo que sinto da pista.

Você tem um novo EP previsto para lançamento no mês de Julho. O que você pode nos contar a respeito desse novo trabalho?

O meu próximo lançamento sairá pela minha label, a Igual Records. O EP contém 3 faixas originais: Envisage, Forecast e Envision. Um EP com duas tracks deep house e uma mais experimental, que é algo que tem sido habitual nos meus releases, ideal para o verão que se aproxima.


Depois desse EP, tenho duas remixes com outros produtores que estão atrasadas, mas na parte final da produção, brevemente darei mais notícias das datas de lançamento. Também em breve lançarei mais música com o meu projeto DENKER, onde exploro uma sonoridade mais minimalista e experimental.

Em 2023, no primeiro ano pós Pandemics, o mundo dos eventos parece ter voltado com força total, com festivais e clubs funcionando a todo vapor. Como está sendo esse ano para você? Quais os planos e projetos para a segunda metade do ano e além?

Por impossibilidade familiar as primeiras datas do verão foram adiadas, mas estarei por várias cidades, Londres, Lisboa, Porto, Algarve, Luanda, Catalunha, Oslo e depois tambem tenho shows pelo Médio Oriente, que ainda estão por ser confirmadas e quem sabe finalmente no Brasil? (ahahah)


Estarei na plataforma Mission London na próxima semana, para um streaming onde irei apresentar faixas inéditas e o meu próximo EP.

Focar-me mais na minha editora e nos próximos releases também é um dos projetos. Um trabalho nada fácil e que requer muito mais tempo e planejamento.

Você provavelmente é um artista que tem bons insights e dicas para os novos artistas que buscam um caminho. O que pode dizer aos novos nomes que estão trabalhando para conquistar seu espaço na Indústria da Música Eletrônica?


Be yourself! Acreditem em vocês, acima de tudo.

Na minha opinião, artista deve ser o primeiro a acreditar em si próprio.

Acho que um artista tem maior probabilidade de vingar quando é genuíno, do que quando tenta copiar alguém.

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Photos: Ruben Almeida / Divulgação

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